
Ainda que a pergunta cause estranheza, o termo medicina do biquíni existe e define o ponto de vista médico de que mulheres e homens são basicamente a mesma pessoa, mas com órgãos reprodutivos diferentes — que são as partes do corpo cobertas por essa roupa de banho [1].Há algo errado com isso?
Há, porque essa crença é uma noção reducionista do que é ser mulher e dos aspectos envolvidos na sua saúde. Quando esse pensamento é seguido, a pesquisa e o cuidado na área ficam restritos à saúde dos órgãos reprodutivos. Para se ter uma ideia, cerca de dois em cada três pacientes com Alzheimer, principal causa de demência no mundo, são mulheres. Apesar disso, a condição não é reconhecida como problema de saúde para o gênero, ao contrário do câncer de mama, ainda que um indivíduo desse grupo na faixa dos 60 anos tenha quase metade da chance de desenvolver esse tipo de patologia em comparação ao Alzheimer.[1].
Já na área de pesquisa, há menor interesse em doenças crônicas não comunicáveis (NCDs) — maior causa de adoecimento e morte em mulheres. Isso foi descoberto por cientistas do Instituto George para Saúde Global, que avaliaram o principal conteúdo dos artigos em revistas de saúde entre 2010 e 2020. Com essa investigação, percebeu-se um aumento em estudos sobre saúde reprodutiva e o inverso acerca das NCDs, que incluem enfermidades como diabetes e problemas cardiovasculares [2] [3].
Para além, de acordo com esses cientistas, a maioria dos artigos abordaram a gravidez e a idade reprodutiva. Essa situação é preocupante já que, apesar de viverem mais, as mulheres passam menos tempo com o máximo de sua vitalidade e têm altos índices de incapacidade na terceira idade, o que torna importante a investigação de distúrbios que afetem mais na velhice[2].
Mesmo que existam provas contrárias à medicina do biquíni, o conceito persiste por três fatores. O primeiro é a baixa representatividade feminina entre os participantes de pesquisas médicas, o que torna os efeitos colaterais e a eficácia dos tratamentos desconhecidos quando administrados em mulheres. Esse desbalanceamento está presente também no âmbito da autoria de artigos — homens costumam publicar mais — e no processo de revisão desses textos, podendo resultar na falta de representação da perspectiva feminina nos estudos. Por fim, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, financiamentos são desproporcionalmente alocados para análises lideradas por homens em detrimento daquelas que afetam mulheres em primeira instância [4].
Dessa maneira, a ampliação do conceito de saúde da mulher é necessária e começa também pela divulgação da temática, como vem fazendo a professora de neurociência Lisa Mosconi, diretora do Programa de Prevenção de Alzheimer no Centro Médico Weill Cornell — Nova Iorque. Ela escreveu o livro O cérebro XX, abordando as diferenças no envelhecimento cerebral de mulheres e homens, e realizou uma palestra no TedTalk intitulada Como a menopausa afeta o cérebro [1][5]. Afinal, o que deve causar estranhamento mesmo é que a medicina do biquíni ainda exista.
Referências
[1] Margarita Rodríguez. O que pesquisadora aprendeu ao estudar o cérebro das mulheres por 20 anos. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp4v57yq028o, Acesso entre: 25 e 29 de Abril de 2023, 2023.
[2] healthcare-in europe.com. Beyond ”bikini medicine”: Should we redefine women’s health? https://healthcare-in-europe.com/en/news/bikini-medicine-redefine-womens-health.html, Acesso entre: 25 e 28 de Abril de 2023, 2022.
[3] Pan American Health Organization. Noncommunicable diseases. https://www.paho.org/en/topics/noncommunicable-diseases, Acesso entre: 27 e 29 de Abril de 2023, s.d.
[4] Tlalit Bussi Tel Tzure. Ignored and underrepresented: The impact of excluding women in healthcare research. https://www.forbes.com/sites/forbesbusinessdevelopmentcouncil/2023/03/07/ignoredand-underrepresented-the-impact-of-excluding-women-in-healthcareresearch/?sh=5642c73c628a, Acesso entre: 29 e 30 de Abril de 2023, 2023.
[5] Lisa Mosconi. El cerebro xx: Una guía para mejorar la salud cerebral y prevenir el alzhéimer en la mujer. https://www.amazon.com.br/El-Cerebro-XX-CerebralAlzh%C3%A9imer/dp/6075572996, Acesso em: 30 de Abril de 2023, 2023.
let author = Vitória Cristhyna dos Santos Camelo; // Idealizador(a) desse Artigo
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Ainda que a pergunta cause estranheza, o termo medicina do biquíni existe e define o ponto de vista médico de que mulheres e homens são basicamente a mesma pessoa, mas com órgãos reprodutivos diferentes — que são as partes do corpo cobertas por essa roupa de banho [1].Há algo errado com isso?
Há, porque essa crença é uma noção reducionista do que é ser mulher e dos aspectos envolvidos na sua saúde. Quando esse pensamento é seguido, a pesquisa e o cuidado na área ficam restritos à saúde dos órgãos reprodutivos. Para se ter uma ideia, cerca de dois em cada três pacientes com Alzheimer, principal causa de demência no mundo, são mulheres. Apesar disso, a condição não é reconhecida como problema de saúde para o gênero, ao contrário do câncer de mama, ainda que um indivíduo desse grupo na faixa dos 60 anos tenha quase metade da chance de desenvolver esse tipo de patologia em comparação ao Alzheimer.[1].
Já na área de pesquisa, há menor interesse em doenças crônicas não comunicáveis (NCDs) — maior causa de adoecimento e morte em mulheres. Isso foi descoberto por cientistas do Instituto George para Saúde Global, que avaliaram o principal conteúdo dos artigos em revistas de saúde entre 2010 e 2020. Com essa investigação, percebeu-se um aumento em estudos sobre saúde reprodutiva e o inverso acerca das NCDs, que incluem enfermidades como diabetes e problemas cardiovasculares [2] [3].
Para além, de acordo com esses cientistas, a maioria dos artigos abordaram a gravidez e a idade reprodutiva. Essa situação é preocupante já que, apesar de viverem mais, as mulheres passam menos tempo com o máximo de sua vitalidade e têm altos índices de incapacidade na terceira idade, o que torna importante a investigação de distúrbios que afetem mais na velhice[2].
Mesmo que existam provas contrárias à medicina do biquíni, o conceito persiste por três fatores. O primeiro é a baixa representatividade feminina entre os participantes de pesquisas médicas, o que torna os efeitos colaterais e a eficácia dos tratamentos desconhecidos quando administrados em mulheres. Esse desbalanceamento está presente também no âmbito da autoria de artigos — homens costumam publicar mais — e no processo de revisão desses textos, podendo resultar na falta de representação da perspectiva feminina nos estudos. Por fim, de acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, financiamentos são desproporcionalmente alocados para análises lideradas por homens em detrimento daquelas que afetam mulheres em primeira instância [4].
Dessa maneira, a ampliação do conceito de saúde da mulher é necessária e começa também pela divulgação da temática, como vem fazendo a professora de neurociência Lisa Mosconi, diretora do Programa de Prevenção de Alzheimer no Centro Médico Weill Cornell — Nova Iorque. Ela escreveu o livro O cérebro XX, abordando as diferenças no envelhecimento cerebral de mulheres e homens, e realizou uma palestra no TedTalk intitulada Como a menopausa afeta o cérebro [1][5]. Afinal, o que deve causar estranhamento mesmo é que a medicina do biquíni ainda exista.
Referências
[1] Margarita Rodríguez. O que pesquisadora aprendeu ao estudar o cérebro das mulheres por 20 anos. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp4v57yq028o, Acesso entre: 25 e 29 de Abril de 2023, 2023.
[2] healthcare-in europe.com. Beyond ”bikini medicine”: Should we redefine women’s health? https://healthcare-in-europe.com/en/news/bikini-medicine-redefine-womens-health.html, Acesso entre: 25 e 28 de Abril de 2023, 2022.
[3] Pan American Health Organization. Noncommunicable diseases. https://www.paho.org/en/topics/noncommunicable-diseases, Acesso entre: 27 e 29 de Abril de 2023, s.d.
[4] Tlalit Bussi Tel Tzure. Ignored and underrepresented: The impact of excluding women in healthcare research. https://www.forbes.com/sites/forbesbusinessdevelopmentcouncil/2023/03/07/ignoredand-underrepresented-the-impact-of-excluding-women-in-healthcareresearch/?sh=5642c73c628a, Acesso entre: 29 e 30 de Abril de 2023, 2023.
[5] Lisa Mosconi. El cerebro xx: Una guía para mejorar la salud cerebral y prevenir el alzhéimer en la mujer. https://www.amazon.com.br/El-Cerebro-XX-CerebralAlzh%C3%A9imer/dp/6075572996, Acesso em: 30 de Abril de 2023, 2023.